terça-feira, 26 de agosto de 2014

Old men must die


Eu nunca tive avô. Um morreu (felizmente?) antes de eu ter noção de que talco no bumbum era gostoso, o outro resolveu antecipar a morte que viria uma década depois e se ausentou da minha vida. Na prática, e para todos os efeitos, eu nunca tive avô. Uma figura "anciã", no entanto, já consegui ter desde criança. Um vizinho, vivo até hoje, que provavelmente é o idoso mais legal que conheço em toda minha história. Outro dia cheguei a sonhar com a morte dele, algo que todos da família sabem que acontecerá mais cedo ou mais tarde. Pelo fato do cara ter ajudado mais a minha família do que inúmeros parentes bem mais "próximos", o choque da notícia, no sonho, me destruiu pelo resto da noite. Hoje, porém, cheguei à um pensamento que, claro, não irá acabar com a dor de uma perda, mas com certeza tranquilizará melhor minha cabeça. O pensamento é: pessoas velhas precisam morrer.

Como sempre, antes de mandar meu pensamento "diferente", quero deixar claro que ninguém quer ver alguém querido morrer, e toda tristeza causada por isso é justa e livre de julgamentos. Pra piorar o modo como você pode enxergar esse post, eu nunca perdi nenhum parente (ou amigo) querido, então nunca cheguei à lidar com morte. No entanto, como vocês sabem, eu penso todo dia nela.

Sabendo disso, vamos dar início.

Não sei se lembram, mas eu trabalho em um RH de um hospital. Um hospital que, de todos os pacientes, uns 90% são idosos. Não só isso, mas por ser um daqueles trabalhos públicos, onde você pode trabalhar o QUANTO quiser ainda que aposentado, boa parte dos funcionários daqui também já passaram dos 60 anos. EM SUMA, eu converso, convivo e ouço idosos o DIA INTEIRO, por toda a semana.



Quando se convive tanto assim com um tipo de pessoa, você começa a perceber muitos padrões, muitos jeitos e pensamentos divididos por toda uma geração. Alguns são engraçadinhos, como a dificuldade em entender tecnologias ou a inclinação que o(a) senhor(a) para ser extremamente brega e cafona nas redes sociais. Outros, no entanto, são dignos de preocupação, são pensamentos que deveríamos contestar mais do que aceitar. Aquele velho papo de escutar os mais velhos.

Você pode não notar, provavelmente porque nunca passou por uma situação onde isso fosse exigido, mas se você tem avô ou avó, ou qualquer pessoa idosa com que conviva, as chances são grandes de que aquele(a) senhor(a) tenha preconceitos e pensamentos COMPLETAMENTE ERRADOS para os dias de hoje. Falo de racismo, homofobia, ignorância política e outras coisas que ficam escondidas por baixo daquela pele enrugada.

A lista de exemplos se segue.

Tem o caso das duas senhoras que estavam do meu lado no metrô. Enquanto todo o UNIVERSO em volta delas agia como se o mundo ainda girasse, apenas aquelas duas pessoas encaravam, sem demonstrar muitas emoções, mas sem parar, duas meninas abraçadas de forma romântica. Não que pessoas jovens não façam isso, mas é sempre mais provável que sejam VELHOS (algumas pessoas acham o termo pejorativo, mas eu prefiro não dar uma foda) que façam.



Tem o caso da colega de trabalho, a Jequiti Witch, que, achando curioso e pertinente, sempre me avisa quando alguma pessoa que esteja à nossa vista seja "sapatão".

Tem minha própria mãe, que em um papo sobre política esses dias, quando eu tentava argumentar que é no mínimo curioso o fato do nosso estado "laico" se submeter diversas vezes às imposições da bancada evangélica, me explicou que NÃO EXISTE homem com homem ou mulher com mulher. Aparentemente, segundo minha velha, o mundo estaria melhor se tudo fosse como "antes", quando não tinha homossexuais, sexo fora do casamento, aborto (chegou à ter essa época?). 

Tem um dos meus favoritos: os velhos que, talvez por não terem um acesso fácil às notícias de São Paulo, acreditam que o PT seja o demônio encarnado em 13 estrelas vermelhas e que o PSDB foi a luz dourada que o Estado, e a cidade, sempre precisaram para melhorar o transporte público, o saneamento básico, a segurança. (Podia falar de política aqui?)

Inclusive, pessoas velhas deviam ser proibidas de se misturarem com política ou religião. O resultado (quase) sempre é alguém de cabeça fechada que, mal sabem todos, contribui muito para que a sociedade continue repudiando minorias do novo século e avanços sociológicos.


Para ser justo, preciso dizer que isso não é uma generalização. Idosos podem, muitas vezes, serem caras legais, que aceitam a vida, as mudanças, as novidades, a evolução. Assim como jovens, também em inúmeras vezes, conseguem ser tão travados e ranzinzas como velhos. E eu acho que tudo aquilo que é velho em seu espírito precisa deixar logo este mundo para dar espaço para o novo.

É só pensar que, daqui há alguns anos será normal ser gay, ou um transsexual. Será normal famílias de cores e gêneros bem diferentes. Talvez a educação tenha evoluído e tenha progredido. Quem sabe?

O importante é que uma coisa fique clara: nada se salva sem estar aberto à evoluções. Poucas coisas em todo nosso planeta são as mesmas que eram há milhões de anos. A maioria das espécies são todas derivadas de progresso, adaptação. Humanos não podem ficar atrás nessa questão.


Assim, é claro que ficarei imensamente triste com a morte de minha avó e desse meu vizinho vôzão, mas ao menos eles estarão dando lugar para cabeças novas, abertas, prontas para dominarem o mundo assim que eu, com minha barriga e minha impaciência, for mais um velho reclamando das novas regras morais.

Enfim, o que acham? Argumentem aonde der sobre esse assunto, de preferência comigo. Pode não parecer, mas eu gosto muito de debater assuntos, por isso faço esses posts "chatos" e sem diversão, para tentar trazer um pouco de pensamento maduro pra minha e, sei lá, pra sua vida.

Comentem, e até mais.

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