sábado, 26 de julho de 2014

Janu Manjão - A cultura do estupro (e a do p** na mesa)

Antes de começarmos, gostaria de deixar uma coisa bem clara: qualquer opinião ou pensamento apresentado nesse texto refletem MINHAS opiniões e percepções pessoais. Eu NÃO falo pelo blog Why Not?, pelo Adleroadler ou por qualquer outro membro do site. Então se você quiser criticar o texto, conversar sobre ele ou simplesmente falar merda, direcione essa conversa a mim, Felipe Januário, pois assumo total responsabilidade pelo que estiver escrito aqui.

Agora que tiramos isso do caminho, solta a vinheta, maestro!


Uma das melhores partes da faculdade é a possibilidade de se conhecer as mais diversas ideologias e pontos de vista sobre a vida. E foi assim que acabei redescobrindo (pois já ouvi a palavra, mas não sabia exatamente o que era) o movimento feminista.

Como eu sei que tem gente que nem sabe o que é feminismo direito, permitam-me explicar: feminismo é um movimento ideológico que prega e luta pela igualdade de direitos e benefícios sociais, econômicos e culturais para mulheres.

Como você já deve estar careca de saber, nossa sociedade favorece os homens. Em diversos ambientes de trabalhos, homens tem mais chances de serem promovidos ou ao menos respeitados do que mulheres, mulheres não tem tanta força na política ainda (apesar dos avanços), além de séculos de uma cultura que a subjulga e a reprime, com ou sem base religiosa.

E um dos conceitos que eu mais vejo é a chamada "cultura do estupro". Uns dizem que existem, outros dizem que não existem e tem a parcela que simplesmente não se importa. Bom, pra mim a cultura do estupro existe sim.

Mas afinal de contas, o que é a cultura do estupro? É o que estou aqui pra responder.

Não existe falocentrismo quando você
toma um soco desse braço na cara

Pelo que pude entender após umas leituras e uma conversa muito agradável, a cultura do estupro é basicamente a objetificação literal da mulher, algo que existe das mais variadas formas.

O exemplo que eu imagino que as pessoas mais conhecem é quando um estuprador alega que a culpa da violência sexual é da mulher. Em muitas declarações, o vacilão diz que a mulher aparentemente queria o que aconteceu, que ele estava o chamando para o sexo ou coisa do tipo.

(Inclusive, acho estupro muito imbecil. É muito melhor quando os dois envolvidos querem e estão curtindo a relação juntos. Mas não sou psicólogo pra elaborar melhor sobre o assunto)

Outra evidência comum, pelo que percebi, é quando a mulher se acha culpada da violência que recebe. Se o homem agride a mulher por um motivo imbecil x, ela acha que quem errou foi ELA e não o fdp covarde que cometeu essa crueldade. É por isso que muitos desses crimes não são reportados, tem um processo de tortura psicológica bizarro envolvido.

Vocês notaram mais ou menos o que acontece em ambos os casos? Mulheres são tratadas como seres sem vontade ou escolha, como meros objetos, extensões da vontade do homem. E se acham que estou sendo precipitado, procure sobre encoxadores no Google. Redefine a palavra "creepy".

(Caso exista algum encoxador lendo isso, me procure e me explique qual é a graça disso. Sério mesmo)

"Chega de cultura do estupro"

Um exemplo mais sutil e que eu não havia percebido até uma conversa é quando você vai chegar numa mulher e percebe que ela está acompanhada. Você obviamente pede desculpas pela vergonha, mas você não pede desculpas pra ela, você pede desculpas pro cara. Se você ver uma mulher comprometida, mas não-acompanhada, você vai chegar chegando e ignorar o status de relacionamento da moçoila. Se ela estiver bêbada então... prefiro não comentar.

Pelo que pude perceber, um dos principais motivos das pessoas não acreditarem na cultura do estupro é pelo fato delas concordarem que as mulheres merecerem essa agressão. Julgar uma mulher por estar "se vestindo que nem puta" é um dos mais clássicos exemplos disso. A galera acha que o simples fato dela estar se vestindo com roupas provocantes indica que ela está dando sinal verde pra violência.

Por que alguém poderia pensar algo tão estúpido assim? No lo se!

É é justamente ISSO que me faz acreditar na cultura do estupro. Infelizmente, essa vontade de julgar é inerente ao ser humano, mas falar que uma pessoa, seja homem ou mulher, queira ser violentada simplesmente pelo modo que está se vestindo é demais pra minha paciência.

Se uma mulher está vestindo uma roupa justa, isso não é sinal que ela quer reproduzir o Kama Sutra com alguém hoje, ela só gosta de se vestir assim e pronto. Aliás, não vou me limitar a esse exemplo de roupas justas. Mulheres terem o direito de se vestir do que quiser, terem o emprego que quiserem, as mesmas oportunidades que nós homens já temos de crescer na vida. O corpo é delas, as regras são delas.

E sim, isso também vale para o aborto. Eu sou contra o ato devido à minhas éticas pessoais em relação à vida, mas eu sou a favor da mulher ter essa escolha. Se o procedimento for feito de uma maneira segura, pra mim tá ótimo. Além do mais, elas tem maturidade para encararem as consequências, seja por arrependimento por alívio. Elas não são assassinas, apenas não querem ser mãe.

Perdão se pareci ter desviado do assunto. Esse termo realmente abre um leque de discussões, que obviamente não cabem nesse texto. O que eu quero dizer é: mulheres não são objetos, não são propriedades. Elas são seres humanos e querem apenas exercer sua humanidade. E não, não estou sendo condescendente, apenas não sou tão bom com as palavras quanto eu pensava XD

Como vocês já podem ter percebido, sim, eu sou meio que feminista. Mesmo que elas não curtam a ideia.

Mulher Maravilha, a heroína mais famosa de todas, foi criada por um pensador feminista
para representar o melhor que as mulheres podem ser.

Vejo que algumas mulheres são contra homens feministas. Pelo que pude ver, elas manifestam uma ideia de que estamos nos intrometendo de alguma forma, que tendências sexistas atrapalham nosso julgamento e que entendemos errado o movimento.

Bom, devo dizer aqui que não quero ser nenhum líder feminista, eu não quero chamar a atenção de ninguém, nem exibir minha força moral. Eu apenas quero que as coisas mudem pra melhor. Até por que homens também sofrem com sexismo.

Pode deixar que eu espero enquanto vocês falam que isso não tem nada a ver, que tudo pros homens é mais fácil e o quanto eu sou alienado.

...

...

*vai na cozinha assar pão de queijo*

...

...

Pronto? Posso falar agora? Obrigado.

Uma sociedade que favorece os homens às mulheres, ou seja, a sociedade em que vivemos, é uma sociedade patriarcal. O que a maioria das pessoas não percebe é que isso é uma enorme faca de dois gumes, pois nós também temos certos padrões a cumprir e almejar.

A esses padrões, eu dei o nome de Cultura do p** na mesa

Dica: se quiser achar o cara perfeito,
procure por alguém feito de chocolate

Eu desse nome por causa da expressão "botar o p** na mesa", que é basicamente uma expressão que significa "ver quem põe mais moral nessa bagaça".

É isso que acontece conosco. Nós sempre devemos ter o melhor carro, a melhor casa, o melhor emprego, a mulher mais bonita e nunca, jamais, mostrar uma sensibilidade, um lado feminino, pois isso não seria macho. Querendo ou não, muitos tomam atitudes estúpidas apenas para encaixar nesse padrão.

E acho que isso vale para as mulheres também, num papel de serem sensíveis, delicadas e educadas, sem poder mostrar um pouco mais de rudez ou capacidade de se cuidarem sozinhas.

Por que estou falando sobre algo assim num texto sobre a cultura do estupro? Por que são faces diferentes do mesmo problema: nós estamos nos reprimindo o tempo todo.

Eu sou feminista e anti-sexista. Ainda há muitos conceitos que preciso repensar e me desfazer. Eu estou longe de ser perfeito e posso estar errado em muitas coisas. E se você defende essas causas, pare pra pensar que você não é perfeito também, e que pode haver erros na forma de você pensar. Mas ao fazer isso, você não está diminuindo o valor do movimento, você está o fazendo melhor.

Ambos os sexos devem se unir nessa causa e redefinir a sociedade como a conhecemos. O potencial está todo aí. Não devemos nos alienar, nos tornar extremistas, mas sim nos completarmos e fazermos do mundo o lugar melhor.

Eu quero me tornar alguém melhor. Todos podemos ser melhores.

O melhor que a humanidade pode ser em uma só imagem
(Cliff Chiang <3)

Pois bem, galera. Esse foi mais um desabafo do que um texto informativo, mas eu realmente queria ter a chance de falar o que realmente penso sobre o assunto. Se você realmente acha que eu estou errado, pode vir conversar comigo, estou aberto a conversas.

E decidi tornar o Janu Manjão trisemanal. A cada três sábados, trarei um pouco de cultura, reflexões pessoais e muita ousadia no Why Not?

Por hoje é só, pessoal!

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