terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Semana(s) Daft Punk: Parte 5 - Random Access Memories (2013)


Pessoas trabalham. Blogs nem sempre rendem dinheiro. Casas nem sempre tem computadores dignos. Climas nem sempre são frescos e agradáveis. Especiais de bandas nem sempre duram só uma semana como prometido.

OLÀ VOC~E COM OS ACENTO TUDO ERRADO

Eu sou o Adler, blogueiro de merda e metade da url deste blog. Bem-vindo ao post sobre o último CD dos franceses, DJs, duo, grupo, banda, Thomas e Guy caras aí. Como sempre, sugiro que leia ouvindo o álbum, é uma experiência extra. Ou escuta Afro Reggae mesmo, who cares?

Ficha Técnica:
Nome: Random Access Memories
Lançamento: 17/05/2013
Duração: 74m24s
Gravadora: Columbia
Produtor(es): Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo
Gênero: Disco, Eletrônica

Breve Resumo:
A espera de 8 anos por um novo álbum da dupla deixava seus fãs loucos. Quando em 2010 o grupo anunciou que estava começando as gravações de seu novo projeto de estúdio, muito se esperou deles. As participações especiais, anunciadas aos poucos, iam garantindo mais qualidade e respeito pelo novo CD, com nomes lendários como Paul Williams, Giorgio Moroder, Nile Rodgers.

Curiosamente, as primeiras experiências com novas músicas para esse novo CD começaram enquanto faziam a trilha sonora de "Tron: Legacy". Os demos feitos pela banda não agradaram os próprios artistas, que acharam melhor deixar o uso de sintetizadores em prol de músicos de verdade.

A produção, diferente de qualquer outro álbum feito por eles, foi gigante e cuidadosa. Diversos músicos de instrumentos diferentes foram chamados para gravarem vários tons e trechos. Cinco estúdios diferentes foram usados, e músicas mais trabalhadas chegaram a transitar por todos os estúdios durante dois anos e meio. Revisões e edições foram feitas até que todas as faixas do CD estivessem em completa harmonia e tivessem o "espírito" desejado por eles.

Trailers do álbum foram exibidos no Saturday Night Live e em um festival de música. O merchandising desse CD era baseado em antigos modos de divulgação, como letreiros. Uma semana antes do lançamento, o álbum "vazou" inteiro na internet, momentos antes de um streaming do mesmo ficar disponível no iTunes. Em 17 de Maio daquele ano, o álbum foi lançado, e quase um ano depois, já teria vendido mais de dois milhões de cópias. 




Significado do Álbum:
Segundo os próprios DJs, a intenção desse novo projeto foi fazer uma viagem no tempo e tocar a música do passado. O próprio nome é uma grande referência à memória RAM e sua tecnologia antiga. A mente humana é tratada como um HD, onde as memórias são armazenadas de forma randômica. Memórias essas que a banda sempre homenageou e respeitou, como o álbum Discovery e os diversos samples que a banda usou de artistas antigos.

Assim, Random Access Memories acaba sendo uma viagem no tempo, tanto na qualidade do CD quanto em suas letras e melodias. Um verdadeiro tributo ao que eles consideram a Era de Ouro da música disco. Tanto que eles se esforçaram para usar o mínimo de efeitos ou batidas eletrônicas para manter a fidelidade do tributo.

Em contraste com esse passado, alguns elementos do CD conversam com o futuro, com músicas como "Doin' It Right", "Motherboard" e "Contact".


As Músicas

01 - Give Life Back to Music


O refrão-título é uma grande crítica à música atual, considerada sem vida pelos DJs. Algo como "volte ao passado e reviva a música". É uma faixa que representa a intenção do Daft Punk de criar um álbum leve, elegante, com a qualidade do passado ajudada por pequenos enxertos de tecnologia presente.


02 - The Game of Love


Para quem era apaixonado por Digital Love e Something About Us, a dupla entrega aqui outra melodia melancólica na voz de um robô "humano", que tem emoções e remorsos, mas de uma forma mais madura do que o álbum Discovery.

É como um "choro" cibernético, embalado por uma trilha onírica, noturna, triste.

Pessoalmente, uma das músicas que mais mexe comigo.


03 - Giorgio by Moroder (OBRIGATÓRIO)


Se você entende bastante de inglês, não ouse pular essa música só por ela começar com um monólogo. Preste atenção no locutor: ele é Giorgio Moroder, produtor, letrista, cantor e DJ italiano famoso por ser pioneiro no uso de sintetizadores em músicas eletrônicas, o que é algo respeitável já que esse instrumento definiu a música disco/eletrônica que viria.

Ele é o ídolo do Daft Punk, e sua participação no álbum, além de produtor, é dando essa "entrevista" onde ele relembra o início de sua carreira, dormindo no carro na porta da Discoteca para economizar na volta pra casa, que era longe. Ele também explica de onde veio a ideia do sintetizador na música eletrônica que estava criando, e com o "CLICK", a música começa a ter um corpo, um ritmo.

Meus pelos da nuca e braços não se controlam quando ele diz seu nome, antecedendo a explosiva música que começa logo em seguida.

Thomas e Guy queriam que esse monólogo servisse como uma metáfora sobre a liberdade musical, onde você abre sua mente e se livra dos conceitos de ritmo e concordância, podendo fazer o que quiser. Uma exploração de gêneros, gostos pessoais, instrumentos novos.

A música em si é uma grande viagem pelos tipos de música disco, pelos anos onde o gênero foi modificado diversas vezes. Por isso o ritmo muda de tempo em tempo, mostrando como tudo evoluiu de um simples CLICK. E foi o mesmo CLICK que encerra a música, representando que tudo acaba de onde começou. Nove minutos de música comprimidos em um simples "tum, tum, tum, tum, tum, tum".


04 - Within


Você com certeza já se pegou em algum momento da vida pensando no "porquê" de você existir. Quem é você? O que isso representa no mundo? Quais são os seus caminhos?

De todas as músicas do álbum, talvez essa seja a que mais fala com o ouvinte. Uma voz robótica (presente nas mais emocionantes músicas do Daft Punk) que representa muitas pessoas, se perguntando o que está acontecendo, para onde está indo, por que está fazendo isso. Um momento único de reflexão no meio de tantas músicas alegres e contagiantes. Como sempre, o Daft Punk inclui em seu CD um momento onde um robô tenta ser humano. E, ao mesmo tempo, criam um momento onde conversamos com nós próprios.

O piano inicial é tocado por Chilly Gonzalez, um músico canadense pianista e que produz música eletrônica. O pedido da dupla para Chilly foi de uma transição, que ocorre no começo da música, da clave "Lá Menor", que era o mais presente nas três primeiras faixas, para o "Si bemol menor".


05 - Instant Crush


Algo que costuma acontecer nas músicas onde artistas convidados cantam ao invés da dupla é o desenvolvimento da letra. Aqui, Julian Casablancas, líder dos Strokes, canta versos elaborados sobre um amor proibido.

E que amor seria esse? Pela letra, podemos identificar um triângulo amoroso. Três amigos, sendo que dois formam um casal. No Song Meanings, brilhante site onde qualquer um pode comentar o que entenderam com a letra de uma música específica, o público batizou os três participantes da música como Matt, o solteiro que é quem canta, Jen, a musa dessa música, e James, o amigo de Matt e namorado de Jen.

Em diversos momentos da letra, podemos ver que os três sempre foram amigos, talvez desde a infância, e sempre saem juntos. Matt desenvolve algo sobre Jen, e essa começa a responder de volta. Eles se gostam, mas só podem se ver quando saem junto de James ("A little time with you is all that I get. That's all we need because it's all we can take").

Em alguns momentos, Matt e Jen conseguem ficar sozinhos, e são nessas horas que aparentemente eles desenvolvem e evoluem esse sentimento mútuo. Um momento importante, e talvez aquele que mais causou impacto nos dois "amigos", foi a vez que foram juntos ao Roche (deve ser algum lugar), e desde então nunca mais tiveram um tempo para ficarem sozinhos ("I wanna take you to that place in the "Roche". But no one gives us any time anymore").

Aparentemente, Jen se arrepende desse erro e tenta esquecer Matt, evitando vê-lo e passando mais tempo com James. O cantor, que percebe esse afastamento, se afoga em depressão e não consegue esconder a tristeza toda vez que os vê juntos. ("I didn't want to be the one to forget. I thought of everything I'd never regret")

Matt não aceita isso, e fica se perguntando se deve desistir de Jen ou se deve arriscar a amizade com Matt e brigar por ela ("Can I give it up or give it away"). No fim, ele decide calar seus sentimentos e se manter o amigo de sempre ("So I chained myself to a friend. Some more again.")

Infelizmente, James percebe as mudanças em ambas as pessoas, sendo o melhor amigo e o namorado de cada uma delas, respectivamente. Assim, ele acaba com o relacionamento de ambos e sugere esquecer o que aconteceu, mas mantendo a amizade com Matt ("He runs his scissor at the seem in the wall. He cannot break it down or else he would fall").

E acaba assim, com ambos esquecendo os sentimentos, levando a vida como ela vem ("We're swimming around, it's all I do, when I'm with you ")


06 - Lose Yourself to Dance


O primeiro hit dançante do álbum, assim como a primeira faixa a ser coroada com a participação de Pharrel Williams, detentor de uma voz que dispensa sintetizadores. A música nasceu com a vontade de se fazer uma canção de dança com a bateria gravada junto dos outros instrumentos.

Nile Rodgers é quem detona com essa guitarra que marca presença e gruda na cabeça.


07 - Touch


Eu acho que não conseguiria, em 5 posts, descrever tudo sobre essa música, tanto o que ela me passa quanto o que ela significa. Por ser o "centro" do álbum, a música do meio, ela representa uma transição de espírito, um divisor de águas. Uma obra da mente e voz de Paul Williams.

Tudo começa com uma voz nos sonhos, algo chamando para o protagonista acordar. Um toque, o anseio por algo maior, memórias.

É uma música extremamente bonita, e muitos dizem retratar as memórias falsas de um robô que tenta entender o que é o toque, como ele se sentia com isso, mas percebendo, no final, que tudo não passa de algo artificial, implantado. 

Eu, particularmente, sempre achei que representava o nascimento de uma criança, o toque que dá início à vida dela, seja o do médico, literalmente, ou o da mãe, a próxima na fila. Retrata a mente de um bebê, talvez o momento que ninguém se lembre.

Guy disse que a faixa é o "centro", a linha central do disco, e que todas as músicas do álbum são memórias em volta desse epicentro, desse foco.

Independente do sentido que você tenha ouvindo ela, não deixe de se aprofundar na letra, de ouvir com headphones, de se focar em todas as etapas da música. Acaba sendo uma experiência reflexiva. Afinal, pra você, que ouve a canção, o que é o toque?

"Hold on, if love is the answer you're home".


08 - Get Lucky


Uma grande música com uma grande participação tanto de Pharrell quanto de Nile mas que foi usada e abusada durante o ano de 2013 à um ponto onde parece que o CD inteiro foi resumido à essa canção.

Como forma de protesto à TODOS OS BABACAS que sugaram essa música o ano inteiro, sem dar espaço para as verdadeiras obras como Touch e Giorgio by Moroder, não vou comentar nada mais sobre ela.


09 - Beyond


Como um grande clássico de sci-fi, essa música começa com uma orquestra digna de Grammy. Tudo tem um clima incrível, fantástico, de encher os olhos. Logo a voz entra na música e te lembra que é Daft Punk, e da forma deles você escuta uma bela poesia.

O incrível é que até agora nem eu nem ninguém chegou à um sentido para essa música. Todas as teorias são muito vagas, fica difícil entender sobre o quê o cantor está falando.

No entanto, a disposição das primeiras estrofes, alinhado com o final da música, cheio de frases bonitas e puramente filosóficas, transformam Beyond em algo louvável e admirável.


10 - Motherboard


Instrumental relaxante (ou sonífero, depende do momento). Elaborado pela banda para ser um som do futuro, um tipo de previsão do que será a música do ano 4000.


11 - Fragments of Time


Depois de 10 trilhas, você chega aqui e só quer ir embora pra algum lugar, seja de carro, avião, moto, barco. Você só quer deitar e ir. Não quer saber que dia é, se você está agasalhado, se as contas foram pagas. Você quer montar na caçamba de uma picape, colocar seus óculos escuros e ir embora.

Algo curioso e muito legal de saber é que a letra, que foi feita e cantada por Todd Edwards (cantou e co-escreveu Face to Face, lembra?), utiliza-se de metalinguagem.

Ou seja, tudo o que Todd canta na música tem a ver com o próprio ato de viajar de carro de New Jersey para a California encontrar a dupla Daft Punk para gravar.

"Driving this road down to paradise / Letting the sunlight into my eyes" - A estrada que vai para a casa de Thomas, dirigir nela enquanto o sol bate na cara.

"Our only plan is to improvise" - Foi dado à Todd a liberdade para usar os samples que quisesse, sendo que nem o Daft Punk nem o próprio Todd sabiam o que sairia daquilo.

"Keep building these random memories. Turning our days into melodies" - Eles estão gravando o Random Access Memories.

"Familiar faces I've never seen / Living the gold and the silver dream" - Uma clara referência à dupla francesa, seus capacetes metálicos e o ato de nunca mostrar o rosto em público.


12 - Doin' it Right



Uma música mais no antigo estilo da dupla. Parece que, não importa quanto tempo passe, o álbum do Daft Punk sempre terá uma música repetitiva e uma música melódica com voz de robô. Aqui, percebi que o vocal principal sobe todas as casas decimais, e depois desce lentamente.

Uma curiosidade: essa é a única música do álbum inteiramente eletrônica, cantada por Panda Bear.


13 - Contact



Tem certos momentos onde tu, escutando eles, para, entende a música, e pensa:

PORRA DAFT PUNK!!!


Se não entenderam o que foi falado no começo dela, eu colo aqui:

"Hey Bob I'm looking at what Jack was talking about 
And it's definitely not a particle that's nearby. 
It is a bright object and it's obviously rotating because it's flashing, 
It's way out in the distance, certainly rotating in a very rhythmic fashion 
Because the flashes come around almost on time. 

As we look back at the earth it's up at about 11 o'clock, 
About maybe ten or twelve diameters. 
I don't know whether that does you any good, 
But there's something out there."

Isso é o relato do Capitão Eugene Cernan abordo da Apollo 17, a última missão lunar do tipo Apollo. Ele relata um objeto que reflete luz fora do módulo lunar, no espaço. Depois foi suposto que seria um pedaço do foguete de estágio que lançou o módulo.

E é isso que eu acho genial. O álbum é claramente inspirado no final dos anos 70, começo dos anos 80. Essa missão aconteceu em 72, no auge do disco. De certa forma, o Daft Punk quer falar do futuro, mas do futuro aos olhos do passado. E é justamente isso: naquela época, o avanço, o destino final era o espaço sideral, a corrida pelas estrelas. E nada melhor para representar esse anseio do que a dúvida "existe algo lá fora?".

Logo que a música ganha corpo, uma melodia de verdade, é difícil perceber, mas a dupla está querendo representando o tal objeto através do som. Tanto que logo depois de um tempo a música ganha velocidade, aumenta o barulho, como se fosse explodir, o que poderia ser o tal objeto caindo e girando na Terra. Quem assistiu Gravidade sabe muito bem o que quero dizer.

Inclusive, faltou tocar essa música nos créditos do filme Ò_Ó


Conclusão Final:
Indiscutivelmente, esse é o MELHOR álbum da banda. Todas as suas influências e ideias estão no máximo aqui. Isso aqui não é opinião, tanto que meu favorito continua sendo o Discovery, mas sim um fato, baseado em todas as boas notas que arrecadou, além de ter ganhado TODOS os Grammy a que foram indicados.

Random Access Memories é o que você tem quando se junta excelentes MÚSICOS, muito investimento profissional, esforço criativo e, claro, a melhor dupla da música, Daft Punk. Um álbum que revive tudo o que o disco foi, mas da maneira Daft de ser. Com pequenos remixes, misturas do antigo (Paul Williams) com o novo (Pharrell Williams). O passado com o futuro. Dourado e prateado.

Nota: 10/10




Bibliografia:

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